Publicado na Gazeta Digital
Escrito por Amado de Oliveira Filho
Com certeza a indústria sucroalcooleira brasileira é referência para o resto do mundo na produção de açúcar e etanol. Não tem para ninguém! Temos facilidade em produzir a matéria-prima em função de nossas condições climáticas, temos tecnologia industrial, temos um mercado interno consumidor espetacular que mitiga os danos causados pelo que não temos: a logística adequada para a distribuição.
O sucesso da produção de etanol no Brasil é fruto de uma ação do governo federal iniciada há exatos 36 anos. Transcorria o ano de 1973 e o chamado primeiro choque do petróleo eclodiu. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), quase todos do Oriente Médio, elevou os preços internacionais do petróleo cru de 1,9 dólares por barril, para 11,2 dólares.
Este fato teve um forte efeito sobre a dívida externa brasileira e, por outro lado, criou o cenário adequado para lançamento do Programa Nacional do Álcool (Proalcool) já no ano de 1975. De uma forma ou de outra, criaram-se, também, as condições e tecnologias para o desenvolvimento automobilístico que temos hoje e viabilizou o conforto ao consumidor de poder decidir se utiliza etanol puro, etanol e gasolina juntos ou tão somente gasolina. É de causar inveja a alguns países desenvolvidos.
O consumo mundial é crescente em todos os continentes, já que a adição do etanol à gasolina e ao diesel oferece ganhos ambientais significativos e reduz o poder dos países da Opep em elevar demasiadamente o preço do barril do petróleo cru. Neste sentido, mais uma vez o Brasil é exemplo, atualmente já desenvolve diversas parcerias transferindo tecnologias para que o etanol possa vir a se transformar numa commodity e, assim, facilitar sua introdução no mercado internacional.
A produção brasileira está, ainda, com grande concentração no Estado de São Paulo com canaviais plantados em aproximadamente 5,2 milhões de hectares do total de 7,5 milhões que o Brasil está colhendo este ano. No Centro-Oeste o destaque é para o Estado de Goiás, que em 2010 ocupou 624 mil hectares com cana-de-açúcar enquanto que o Estado de Mato Grosso aparece tão somente com 236 mil hectares.
A projeção para o ano de 2021 é de que o Brasil colherá uma área plantada total de 9,7 milhões de hectares de cana-de-açúcar, dos quais 6,7 milhões de hectares no Estado de São Paulo. Mato Grosso se aproximará de 300 mil hectares e o Estado de Goiás ultrapassará os 885 mil hectares. Destaco que, segundo o governo federal, que divulgou estes números, todo este crescimento se dará em áreas de pecuária. Isto merece uma reflexão à parte, já que são áreas que hoje produzem alimentos de consumo direto.
Estes números são importantes porque indicam a manutenção da concentração no Estado de São Paulo, demonstra que as restrições impostas ao zoneamento da cana-de-açúcar impõem a estagnação do setor em Mato Grosso e permite que o vizinho Estado de Goiás agregue mais de 260 mil hectares neste mesmo período.
Como ficará a situação do consumidor? Não mudará muito. Haveremos de conviver com a volatilidade de preços verificada hoje, onde na safra os preços reduzem significativamente e disparam na entressafra. Devemos acrescentar ainda mais um complicador que é a suspensão dos subsídios ao etanol produzido a partir do milho pelos Estados Unidos, que certamente implicará numa forte retração na produção para o seu enorme mercado interno.
Claro que ninguém vai assumir hoje que o Brasil será um grande exportador de etanol, ao contrário, dirão que a prioridade será sempre o mercado interno, porém alguém terá que ocupar o lugar dos Estados Unidos na exportação do etanol. Certamente que os diversos países consumidores escolherão o nosso etanol, e isto fará com que o luxo de podermos escolher que combustível utilizar se esbarre nos preços, quase sempre não convidativos.
Amado de Oliveira Filho é economista, especialista em mercados de commodities agropecuárias e direito ambiental e escreve às quartas-feiras em A Gazeta. E-mail: amadoofilho@ig.com.br
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